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História Nova do Brasil: a república para o ensino básico
O advento da república História Nova do Brasil, pág. 49 a 99 Editora Brasiliense A República resultou das lutas travadas pelos grandes contingentes urbanos das camadas médias apoiadas por todos os setores populares da nação, da burguesia nascente e fração do latifúndio do café que abandonara o trabalho escravo. Os Senhores de terras, uns ligados de há muito ao trabalho assalariado e que lutaram, portanto, contra o Império, pela Abolição, não mais apoiaram a Monarquia, vindo a participar da nova política de governo; outros aferrados que estavam ao trabalho escravo e servil, não tinham forças para resistir: estavam impotentes. Compor-se-iam, mais tarde, para afastar “os excessos do republicanismo” e tentariam um golpe de Estado, ainda com Deodoro. Conseguiram dar início, com o Governo Prudente de Morais, ao domínio das oligarquias. A participação da burguesia, pequena porque limitada era sua força na época, permitiu que usufruísse do poder. Nessa linha estão as emissões, de Rui Barbosa, no Ministério da Fazenda, possibilitando crédito e incentivando a formação de companhias, e a revogação do empréstimo imperial aos latifundiários como “indenização” pela perda de seus escravos. A República, enquanto representação de certas forças sociais, caiu, mas as transformações estruturais que, em curto período, realizou no domínio econômico ficaram e se desenvolveriam, voltando a eclodir na Revolução de 1930, já em novo nível de desenvolvimento. No breve período republicano em que estiveram no poder forças progressistas da nação, criaram-se mais indústrias do que em todo o tempo do Império. A força preponderante do movimento republicano repousou nos contingentes das camadas médias, já que o operariado, embora participando, como atestam várias greves, era ainda incipiente. O Exército, pela sua origem, e com a força e organização que lhe são inerentes, representou a vanguarda da classe média e de todas as classes sociais que apoiavam a mudança do regime político. A República importou em dar vários passos à frente em nossa estrutura política. O novo regime terminou com o grotesco Poder Moderador, com a vitaliciedade do Senado, com o direito do voto fundado na renda. A passagem de Rui pela pasta da Fazenda repercutiu como uma rajada renovadora naquele velho ambiente. O governo de Floriano empolgou e conscientizou o povo. O estudo dessa época, que alguns denominam de crise da República, mas que foi realmente de crise para o latifúndio, encontra-se no capítulo seguinte. Mostra a primeira experiência brasileira de governo democrático, com as deficiências e as ingenuidades que as limitações da época nos impunham, mas com realizações que precisam ser analisadas e estudadas como importante manancial de experiências e ensinamentos para o nosso povo, e um vasto repositório de suas mais legítimas tradições. Indicações bibliográficas BOEHER, George C. A – Da monarquia à República: história do partido republicano do Brasil – 1870-1889. Rio; CRUZ COSTA, João. Contribuição à história das ideias no Brasil. Rio, 1956. FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. Rio, 1959; PRADO JÚNIOR, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo, 1959; PRADO JÚNIOR, Caio. Evolução política do Brasil. São Paulo, 1957; SODRÉ, Nelson Werneck. Quem é o povo no Brasil. Rio, 1962; VIANA, Oliveira. O ocaso do império, 3ª ed. Rio, 1957; VILELA LUZ, Nícia. A luta pela industrialização do Brasil. São Paulo, 1961.
Escrito por historia.nova às 22h18
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Álvaro Vieira por seu irmão Ernani Vieira Pinto
Carta de Ernani Vieira Pinto sobre seu irmão Álvaro Vieira Pinto Itacuruçá, 3.4.92 Caro Sr. Acir Em resposta a sua carta de 26 de março último, tenho a informar que recebendo o pedido do Professor Jefferson, imediatamente mandei uma foto do Álvaro e esposa, na Yoguslávia, pois não temos nenhuma que esteja só, e junto um artigo publicado no “Jornal do Brasil”. Quanto ao questionário pedido de ordem biográfica, posso informar: data de nascimento: 11-11-909 data de casamento: 12.6.964 data de conclusão do curso secundário – naquele tempo, pelos anos de 1925 ou 26, para se concluir os estudos iniciais, eram chamados “cursos preparatórios” em que o aluno para ter um diploma, deveria fazer exame das seguintes matérias: português, inglez, francez, e latim, aritmética, álgebra, geometria, trigonometria, - história universal, história natural, físico-química, história do Brasil. O aluno como em todos podiam fazer num ano qualquer quantidade dessas matérias, bastando requerer no dim do ano, que desejava prestar tais e tais exames, só que isto era feito perante uma banca examinadora de alto nível, só passando quem realmente soubesse. Assim tendo o certificado de todas essas matérias, o aluno podia requer o ingresso numa faculdade. Esses preparatórios Álvaro os fez no Colégio S. Inácio, dos padres jesuitas no Rio de Janeiro, onde estudamos. Data de partida para Yugoslávia – outubro de 1964 Data de partida para Chile – 1986 Data de retorno ao Brasil – 8-9-68 Ano de conclusão do curso de Medicina – 1932 Ano do início da pesquisa sobre câncer – 1932 Quanto as obras não publicadas nada sei a respeito, nem possuo outros artigos sobre Álvaro. Quanto a pessoas que podem informar, tem o Prof. Darcy Ribeiro e o Dr. Francisco, médico de uma Casa de Saúde S. Lucas, que vou se faço contato a respeito e lhe mandarei o resultado. Na próxima semana devo falar com nossa sobrinha, Mariza Urban, jornalista, que pode talvez me informar alguma novidade, por estar mais em contato com a esposa de Álvaro. Em conversa com minha irmã Laura, hoje com 81 anos, me esclareceu que quando terminou a última grande guerra, em 1946, Álvaro foi convidado pelo Governo da França, e foi ser professor em Paris, na Sorbone o que foi aceito, sendo assim o primeiro brasileiro, honrado com esse convite. Quanto ao exílio na Yugoslávia, foi convidado para ser professor na Faculdade de Split, uma praia do Adriático. No Chile foi professor no Colégio dos Padres Jesuitas, trabalhando na ONU como tradutor de línguas. Agora, meu caro Sr. Acir, eu que passei a vida tomando depoimentos no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, e agora aos 80 anos, vou prestar o meu: …...... Disse que: eram 4 irmãos, sendo 3 homens e uma mulher; que só restam Ernani e Laura, que Álvaro desd pequeno tinha paixão pelos estudos, tanto que com 15 anos de idade, fez um laboratório de química dentro do quarto nos fundos de nosso terreno no Rio, e lá fazia reações químicas, com fumaças, que amedrontavam a família toda; que nossa mãe Arminda foi atacada pelo terrível mal do câncer, e Álvaro passou um ano ao lado de sua cama e quando ela faleceu, ele passou a pesquisar a origem da doença; que lembr-me que ele dizia que o câncer não é transmissível, nem hereditário; que quanto a vida dele no exílio, pouco eu sabia, pois passávamos muitos meses sem nos corresponder, tal a vida das grandes cidades, onde as pessoas pouco se visitam, e tão diferente do interior que tenho grandes lembranças de Ponta Grossa, onde estive várias vezes, bem como em Castro, Jaguariahyva e Tibagi, este último uma autêntica cidade do cinema americano, onde era extraído ouro e diamantes, porém isto já se vão 65 anos: que de Ponta Grossa, nosso pae, Carlos, era comerciante de madeiras e tinha aí nessa cidade um sócio de nome Mário Guimarães; que Mário Guimário Guimarães tinha dois filhos de nome Theodoro e Fausto, os quais vieram para o Rio de Janeiro, e moraram em nossa casa vários anos até se formarem, sendo um em Direito e outro na carreira militar até o posto de General; que também veio um rapaz do nome Heraldo Gomes, cujo pai era tabelião em Ponta Grossa; que estas as lembranças de uma vida passada e que parece que foi hontem. Agora meu caro Sr. Acir me despeço, aguardando uma visita a cidade de Itacuruçá, no Estado do Rio de Janeiro, situada a beira mar, destante 2 horas do Rio, e com um movimento diário de 300 a 400 turistas por dia e onde apesar da minha idade dou assistência no combate a criminalidade, que não tem fim, e é o meu gosto no fim da vida que se aproxima. Um grande abraço ao Prof. Jefferson e certo de que se tiver alguma novidade lhe enviarei. Do amigo, Ernani (Palavras: ISEB, Vieira Pinto, Paulo Freire, história da filosofia brasileira, história da educação, história de ponta grossa, Ernani Vieira Pinto, Laura Vieira Pinto, Mariza Urban)
Escrito por historia.nova às 21h53
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Notas introdutórias para quem ama ensinar História Escravidão no Brasil – 1500 a 1888 Interpretações sobre o período: concepção materialista introduzida no Brasil de forma pioneira por Caio Prado Júnior em 1933. O escravismo (grande plantação, monocultura exportadora, mão de obra escrava) seria um modo de produção novo? JACOB GORENDER Um modo de produção escravista colonial – CIRO FLAMARION CARDOSO Patriarcalismo – A Casa grande é mais importante que a Senzla - GILBERTO FREIRE, OLIVEIRA VIANA Explicação pelo latifúndio – ALBERTO PASSOS GUIMARÃES e LEÔNCIO BASBAUM Dualismo: no Brasil vigoravam dois sistemas – capitalismo e escravismo – J. NORMANO, IGNÁCIO REIS, LAMBERT Dualismo de Nelson Werneck Sodré – escravismo no litoral açucareiro e feudalismo no restante- NELSON WERNECK SODRÉ Capitalismo incompleto – FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Capitalismo moderno – A escravidão era meramente um capitalismo moderno – PAULA BEILGUELMAN
É importante que o professor de História exponha, sem pressa, aos alunos rápida biografia intelectual, dos grandes pensadores e teóricos destes pontos de vista. Situar cada um nas lutas de seu tempo e o significado para o momento contemporâneo. Nelson Werneck Sodré, Alberto Passos Guimarães, Leôncio Basbaum, são intelectuais atuantes no período de intenso debate político e cultural brasileiro antes da Ditadura, no período 1954-1964. Nelson Werneck Sodré (1911-1999) foi professor do ISEB. Fontes: José Oscar Beozzo. Encontros com a civilização brasileira, nº 1 – Rio: Editora Civilização Brasileira. http://isebianohistorico.blogspot.com/2011/12/apontamentos-para-quem-ama-ensinar.html
Escrito por historia.nova às 20h46
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NELSON WERNECK SODRÉ - Por Carlos Heito Cony
CARLOS HEITOR CONY
Nelson Werneck Sodré
RIO DE JANEIRO - Entre os centenários que, neste ano, estão sendo comemorados, destaco o de um dos homens que mais me impressionaram pela sua cultura e dignidade. Não o conhecia pessoalmente, mas lia os seus livros com prazer e proveito. Logo no início da quartelada de 1964, estava preso numa das fortalezas da Guanabara, fora dos primeiros a ser punido pelos seus colegas de farda, pois se tratava de um general cujo pensamento desagradava aos homens que haviam tomado o poder. Todos os que o conheceram tinham a certeza de que era um dos homens mais íntegros de nossa paisagem intelectual. Podiam discordar dele, mas sabiam que Nelson Werneck Sodré (1911-99) colocava, acima de tudo, a dignidade do ser humano, a sua e a dos outros. Sua obra abrange três segmentos interativos pela sua cultura de fundo humanístico: a literatura, a sociologia e a história. Foi mestre nos três departamentos. Tornou-se citação obrigatória de todos os pesquisadores que estudam o processo brasileiro como um todo, e não em seus departamentos estanques. Um texto de Nelson Werneck Sodré sobre Machado de Assis ou sobre um dos nossos ciclos econômicos se destaca pela abrangência de sua visão. Conhecia o geral e chegava ao particular. Sabia ver a árvore e a floresta. Um dos líderes mais respeitados da nossa intelectualidade, nunca se deixou fascinar pela badalação inconsequente de certa época, nem pelo radicalismo carreirista que marcou a carreira de tantos. Nunca deixou de ser um ponto de referência do pensamento brasileiro. Teórico do nacionalismo, jamais se tornou xenófobo. Recusou cargos, compensações e homenagens. Viveu austeramente. Formava o escalão mais consciente da esquerda que ele procurou ensinar, explicar e pela qual sacrificou sua vida. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1905201105.htm
Escrito por historia.nova às 01h32
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NELSON WERNECK SODRÉ: cisão do PCB no Brasil
Rio, 01.08.92 Prezado Acir da Cruz Camargo, saúde e paz. Recebi e estou respondendo a sua carta de 28 de julho p. findo. Quero, preliminarmente, lhe agradecer os termos que tão generosamente se refere ao que tenho feito. As recompensas do trabalho intelectual são poucas, na verdade. Mas, entre elas, está, com enorme importância, a de proporcionar ao autor angariar amigos que ele não conhece, que são seus amigos tão somente porque apreciaram as suas obras. É extremamente reconfortante, quando isso acontece. Passo a responder as suas duas perguntas. Sobre o analfabetismo, e a maneira de combatê-lo: como é sabido, o analfabetismo declina na medida em que o desenvolvimento material avança; assim em sociedades capitalistas avançadas (Alemanha, Estados Unidos e outras) o analfabetismo tende a desaparecer. O nosso, o brasileiro, está intimamente ligado e dependente do atraso do país. Na medida em que avançamos, progredimos, mesmo no nível meramente material, ele tende a declinar e está declinando. Pode, pois ser erradicado, sem nenhuma dúvida. As áreas socialistas praticamente acabaram com ele. Mesmo em Cuba, com seu passado colonial, teve êxito nesse propósito e não foi isto dos menores méritos do regime ali instaurado. Claro que a alfabetização e a cidadania são sempre conjugadas. A segunda pergunta merece resposta mais circunstanciada. Claro está que a crise na União Soviética (que foi uma crise da União Soviética e não uma crise do socialismo) acarretou consequências em todo o mundo. No Brasil, acentuando uma linha que já dera alguns sinais antes, provocou o aparecimento de uma ala, no próprio PC, que marchou para uma revisão do partido e de tudo o mais que dizia respeito a sua atuação. Essa tendência, que já existia e progredia, aproveitou a crise para realizar, em dois congressos com pequeno intervalo entre um e outro, alterações que motivaram a cisão. Pessoalmente, tenho amigos nas duas alas e fiz o possível para que não chegasse a tal cisão. Tenho muitas dúvidas sobre se a abolição do símbolo histórico da foice e do martelo e a mudança do nome do partido significam mais do que problemas superficiais. Havia necessidade de mudar, realmente, algumas formas de proceder. Mas não havia que mudar, no meu modo de ver, o essencial da conduta partidária. Estou certo de que as duas alas estarão juntas, face aos problemas essenciais que se apresentarão no cenário político brasileiro. Como estou certo de que a crise na União Soviética está longe de ter chegado ao fim: é uma novela em seus primeiros episódios. Posso lhe assegurar, de mim, que estou, mais do que nunca, aferrado ao socialismo e ao marxismo, fora dos quais não vejo saída para a sociedade humana e para a brasileira em particular. Creia na estima e apreço do Nelson Werneck Sodré
Escrito por historia.nova às 20h53
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NELSON WERNECK SODRÉ: historia nova do Brasil e materialismo histórico
Rio, 18.01.93 Prezado Acir da Cruz Camargo, saúde e paz. Respondo sua carta de 08 de janeiro corrente, ponto por ponto. Agradeço as correções ao meu livro A ofensiva reacionária. Nunca sou eu quem corrige os originais ou as provas e padeço, como todo autor, do problema das incorreções no texto. É preciso ter paciência. Suas correções serão introduzidas em uma nova reedição possível. Vou lhe enviar uma obra minha que tem a relação de todos os meus livros. Não tenho cópia do artigo sobre Álvaro Vieira Pinto e o jornal Diário de Notícias desapareceu. Osvaldo Costa, um dos maiores jornalistas brasileiros, já falecido, foi o diretor e editor de O Semanário. Genese e formação da consciência nacional é o mesmo Consciência e realidade nacional, obra de Álvaro Vieira Pinto. Alceu Amoroso Lima não se recusou a falar no ISEB; trata-se de uma mentira divulgada na época. O livro publicado em Moscou tem título em russo, língua que desconheço. Não foi posto à venda no Brasil, nem foi traduzido. Pedro Celso Uchoa é, atualmente, professor na Universidade de St. Louis, nos Estados Unidos, Missouri. Foto minha só tenho antiga. Vou ver se encontro. Eu não disse que os textos do ISEB não se baseavam no materialismo histórico. Disse que os textos da História Nova é que nele não se baseavam. E disse certo, pois tais textos, embora revelem nos autores conhecimento do materialismo histórico, foram propositadamente, redigidos de maneira livre, isenta de fidelidade ao materialismo histórico, uma vez que seriam editados, como foram, pelo MEC e isso nos impossibilitava de obedecer, ortodoxamente, ao materialismo histórico. Tais textos eram alternativos, para os professores, que, sem eles, só dispunham dos compêndios de clara indigência terrível. Fazendo um trabalho para o Estado, não podíamos aplicar, a rigor, um método que o Estado não apreciava. A mente dos autores, pelo menos naquele tempo (alguns mudaram de posição) era norteada pelo materialismo histórico. Considero Formação histórica do Brasil o meu livro fundamental. Não sei se é o melhor, mas é o que assinala um rumo que seria o meu pelo resto da vida. Por último, não conheço nenhum estudo especial, em livro, sobre a minha obra. Quanto à entrevista, é preciso apenas combinar dia e hora. Pois sempre viajo. Agora mesmo estou de partida para S. Paulo, onde devo permanecer um mês. Abraços do amigo Nelson Werneck Sodré
Escrito por historia.nova às 19h23
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NELSON WERNECK SODRÉ: História nova, história e marxismo no século XX
Rio, 05.05.94 Prezado Acir da Cruz Camargo, saúde e paz. Acuso recebimento de sua carta de 02 de maio corrente, que passo a responder. Em primeiro lugar, meus agradecimentos pela sua lembrança do meu aniversário. Na verdade, velhos não comemoram aniversários, mas é sempre bom ser lembrado pelos amigos. Claro que, no âmbito da crise geral e da crise da cultura brasileira em particular, a da Universidade é natural. Nela, por isso mesmo, a História está sendo abandonada ou posta em segundo plano. E o marxismo, em consequência, como é próprio da época. Como você, fiquei decepcionado com o depoimento do Pedro Figueira, na edição que o editor Giordano fez da História Nova. Creio que é um problema de esclerose e nada mais. As correntes pretensamente inovadoras, no campo da História e de seu ensino, correspondem à crise da época em que vivemos e à ofensiva da reação em todos os campos. Isso passa. Não deve preocupar os que se entregam ao estudo da História enquanto ciência e ao materialismo histórico, que a colocou nos devidos termos. Quem me iniciou no estudo da História foi o meu professor dessa matéria, no Colégio Militar do Rio de Janeiro, em 1926. Ele se chamava Isnard Dantas Barreto e foi um grande professor. A História do Brasil é uma parte da História abrangendo o tempo histórico e todo o espaço. Ela é uma ciência, sem a menor dúvida, aliás, a ciência das ciências, pois a todas é possível estudar pelo método histórico. Quando tirar retrato não me esquecerei de lhe enviar uma cópia. Abraços do Nelson Werneck Sodré PS. - As suas cartas não me importunam. Ao contrário.
Escrito por historia.nova às 18h38
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NELSON WERNECK SODRÉ: General contra o neoliberalismo
Rio, 21.07.96 Prezado Acir, saúde e paz. Respondo sua carta de 12 do corrente. A correspondência com os amigos não representa peso para mim. Apesar dos 85 anos completados, continuo em atividade, agora, no combate à última praga que nos chega, o neoliberalismo. A relação entre o ISEB e Paulo Freire, como a minha relação com o trabalho dele existiu de fato. Não participo da posição de Vanilda Paiva em relação a ele, apesar da consideração que tenho por ela. Não espanta a sua dificuldade em encontrar as minhas obras. Elas estão esgotadas, na maior parte e o mercado editorial sofre a crise imposta pelo neoliberalismo. Com um pouco de paciência, creio que voce conseguirá completar a sua coleção. Cláudio Giordano, editor benemérito e audacioso, gostaria de reeditar a História Nova mas as dificuldades são insuperáveis. A opinião do professor, que voce resume, é uma opinião: nada tem a ver com o que escrevi. O plano econômico de FHC é uma enfermidade universal; e a Revolução brasileira vai avançar, apesar dele. Há uma ala da burguesia que, ligada ao mercado interno principalmente tem interesses no nacionalismo. E por isso vem sendo esmagada. Abraços, Nelson.
Escrito por historia.nova às 22h33
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Nelson Werneck Sodré - o que é História
Rio - 27.09.93 Prezado Acir da Cruz Camargo, saúde e paz. Respondo sua carta de 16 do corrente. Fico muito satisfeito em saber de sua pesquisa sobre a minha obra. Grato por isso. A leitura dos autores que fizeram críticas à minha obra e ao ISEB é também merecedora de estima. Já tive a oportunidade de escrever que são os nossos adversários, adversários das nossas idéias, que fornecem o nosso verdadeiro perfil, justamente porque destacam o que não somos, o que é tão importante quanto o que somos. Respondo por isso com prazer ao questionário que acompanha a sua carta, ponto por ponto. Antes que me esqueça: o livro sobre populismo já foi encontrado e remete-lo-ei na próxima semana. Estou dependendo apens da pessoa que ficou de me trazer em casa exemplares desse livro. E vamos ao questionário. 1. O fato de autores da USP (só conheço um, aliás) me acusarem de seguir uma linha esquemática e estalinista não tem, para mim, a menor significação. Corresponde, apenas, a uma posição negativa que faz parte da luta ideológica. Nós, no ISEB, não postergávamos a luta de classes, absolutamente. O ISEB tinha vários professores e, conquanto, depois de grave crise, preponderasse ali uma linha marxista e nacionalista, a verdade é que ela comportava variantes. Alguns críticos, anti-isebianos por vários motivos, estavam mais à esquerda do que os isebianos, acusavam-nos, a nós do ISEB, de não sermos suficientemente esquerdistas. Acontece que eles, os críticos, não eram marxistas. Não fomos, pois, revisionistas, muito ao contrário. Voce pergunta: "Por que um marxista, num dado momento, deixa de pensar a luta de classes e sim uma aliança de classes". Ora, isso não deriva de desejos; deriva da realidade. Corresponde à necessidade de estabelecer aliança com uma classe para derrotar a outra, aquela que, na fase é, é a principal inimiga. Isso acontece com frequência na História e não depende apenas da vontade das pessoas. 2. Como conciliávamos, no ISEB, eu e os companheiros, a questão da luta de classes com a aliança com a burguesia nacional, naquela fase para enfrentar o imperialismo? O inimigo principal era o imperialismo. Os nossos críticos desejavam que, por fidelidade a um princípio teórico, abandonássemos a luta ou nos isolássemos. Havia, na burguesia nacional, contradições com o imperialismo. Isso nos aproximava dela; ou, antes, ela se aproximava de nós. Não me recordo das colocações do companheiro que escreveu Consciência e realidade nacional, livro importante que precisa ser lido com senso crítico. Claro está que jamais entendemos a aliança como esquecimento de que há uma exploração do trabalho, luta de classes. A aliança da fase não importava em ignorar isso ou negar. 3. Temos, realmente, a mais retrógrada burguesia, na História. Isso, entretanto, não importa em negar, na sua parcela nacional, contradições com o imperialismo, que é um dado da realidade. Enquanto ela aceita tais contradições, tem condições de lutar com o trabalhador, não para estabelecer o socialismo, mas para enfrentar, transitoriamente, um inimigo comum. 4. Sempre pensei que as teorias que defendi, na teoria e na prática, eram, e são aplicáveis a todos os povos latino explorados do mundo, particularmente aos latino-americanos. 5. O Fascismo cotidiano é um livro, editado em São Paulo, em 1990, pela editora Oficina de Livros (Av. Brigadeiro Luiz Antonio, 469, s. 83, cep 01317-001, São Paulo). 6. Não tenho notícias de recentes comentários, resenhas ou críticas ao meu livro Formação histórica do brasil. Isto faz parte da política de abafar pelo silêncio, usual entre nós, na luta ideológica. 7. Não tive formação universitária em História. Sou, nela, um autodidata. No meu tempo, não existiam estudos universitários de História. Não havia faculdades de Filosofia, nem mesmo Universidades, nem Institutos de Letras. E a vida militar, depois, me impediu que, mesmo adulto ou velho, me matriculasse nas que apareceram. Os de formação acadêmica me criticam e alegam essa ausência de diploma para me negar. Na verdade, o ensino de História, nas Universidades, está muito distante daquilo que eu aceito como História. É uma forma de alienação. Já dei cursos em diversas Universidades, cursos avultos. Nunca exerci a cátedra universitária, nem desejo exercê-la. É o que me acode para responder aos quesitos propostos. Fico ao seu dispor para mais. Um abraço ao Pedro, Outro em voce do Nelson Werneck Sodré
Escrito por historia.nova às 18h50
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Carta de Nelson Werneck Sodré
Rio, 22.03.93 Prezado Acir da Cruz Camargo, saúde e paz. Ausente do Rio por mais de mês, encontrei, de volta, a sua carta de 04 do corrente. Esta a razão da demora em respondê-la. Vamos, ponto por ponto. Ainda não lhe enviei a relação dos meus livros publicados porque ela consta de um deles e precisa ser atualisada. Logo a terá em mãos. Quanto às afirmações do professor a que se refere, refletem a sua mentalidade. Afirmar que a tese do feudalismo no Brasil foi por mim esposada por imposição do PCB não é apenas uma inverdade, é uma calúnia, costumeira na boca de pessoas do quilate desse que "ensina" História em Ponta Grossa. Também é clamorosa inverdade a afirmação de que me retratei da idéia da existência de feudalismo no Brasil. É outra mentira vulgar, agora deslavada porque ultrapassa o nível da simples opinião para mencionar um fato inexistente. Agora a sua pergunta: nao revi a afirmação de que o movimento de 1930 foi parte da revolução burguesa no Brasil. Ela está de pé em meu trabalho Capitalismo e revolução burguesa no Brasil, editado pela Oficina de Livros, S. Paulo. Um abraço do amigo, Nelson Werneck Sodré
Escrito por historia.nova às 21h00
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Nelson Werneck Sodré - conceito de populismo
"Toda essa pré-história política, contada desde a ascenção burguesa no Brasil e a decorrente organização do proletariado, fora marcada pelo populismo, como manifestação externa, mas sintomática. Assustadas com o populismo, as forças reacionárias haviam decidido liquidá-lo, quando ele já estava envelhecido. Pensavam deter o carro da História, e fazê-lo recuar. Mas apenas contribuiram, em movimento dialético, para limpar os caminhos da fase que se aproxima, em outro nível, com outra qualidade. Ao crepúsculo, depois da noite, longa ou curta, sucede sempre a alvorada" (A ofensiva reacionária).
Escrito por historia.nova às 21h10
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História Nova: que dizem hoje, seus co-autores
PEDRO DE ALCANTARA FIGUEIRA Acir, bom dia. Vou tentar responder às suas indagações, pelo menos no que se refere a mim particularmente. Em primeiro lugar te agradeço o interesse pela Hist. Nova. Aquilo que te escrevi faz parte das minhas próprias mudanças nos últimos tempos. Não abandonei, de forma alguma, meus princípios que, resumidamente, poderia sintetizar dizendo que considero que estamos vivendo uma fase histórica em que a divisão da sociedade em classes sociais deixou de ser a razão do seu desenvolvimento. Nesta visão cabe muita coisa. Cabe, por exemplo, aquilo que Marx entendia por “uma época de revolução social”. Cabe, também, Lula, Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e todos aqueles que na América Latina representam a fase em que o império americano se tornou impotente para ditar os encaminhamentos políticos. “Uma época de revolução social” é, de certo modo, uma visão que pode comportar revoluções proletárias, mas que é muito mais do que isso. É uma visão histórica segundo a qual, invoco outra vez Marx, nenhuma forma social pode ser eterna porque, como dizia Aristóteles, aquilo que um dia teve início não é eterno. A briga de Marx com a Economia Política pode ser sintetizada precisamente nesse ponto, ou seja, segundo ele não se sustenta a concepção burguesa segundo a qual a sociedade capitalista corresponde à natureza humana. Não se sustenta precisamente porque enquanto sociedade ela foi gerada pelo movimento histórico. Quando Marx trata todas as formas sociais como histórico-naturais seu pensamento chega às raias da genialidade. Eu me pergunto, hoje, se a Hist. Nova não poderia ter feito parte desse movimento geral de transformação que é o nosso mundo atual. Nem tudo é perfeito. Meu depoimento, na edição do Giordano, foi negativo quanto a esse aspecto. Isso não quer dizer que tenho, agora, uma resposta definitiva. Quando escrevi meu depoimento tinha essa posição. Que mudei sob vários aspectos, mudei. Como resolver esse impasse? De minha parte, vou ler os livros que publicamos e, então, te darei uma resposta. Quanto ao Joel, que é com quem mantenho um bom relacionamento, penso que vocês poderiam conversar diretamente sobre as várias questões que envolvem uma reedição. Como te disse, estou morando no Rio e posso conversar com ele sobre todas as questões que existem e que podem surgir. Quanto aos outros autores, penso que, no decorrer da discussão, como moram todos no Rio, ou bem próximo daqui, algum encontro teremos que fazer. Acho que quanto à sua pergunta sobre se o que está ocorrendo agora teria uma grande identidade com os propósitos da Hist. Nova, não me arriscaria a uma resposta categórica. Mas é possível que entre as pessoas que leram a Hist. Nova, e que até a usaram como livro didático, se encontrem muitas que passaram a considerar a sociedade a partir de uma visão crítica da ideologia dominante. Talvez tenhamos feito a História entrar na vida de muitas pessoas. Não é pouca coisa. Se há algo que a ideologia dominante repudia radicalmente é que a História faça parte das opiniões do homem da rua. Você fala de editora e editoras. O que é mesmo que você tem em mente ou em vista. Quanto à firmeza dos autores, isto vai depender, por exemplo, de os autores terem conhecimento do propósito de alguma editora de reeditar os livros. Tudo isto vai ser um processo de discussão. Continuaremos a conversar para aclarar os pontos que forem surgindo. Abraços, Pedro
Escrito por historia.nova às 22h37
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História Nova do Brasil para a Escola de 2011
Este espaço se dedica a resgatar a História Nova do Brasil, capitaneada pelo valoroso professor de História do Brasil, General Nelson Werneck Sodré. Provocar os professores contemporâneos dessa matéria a romperem com o comodismo e alienação presente ainda, no seu ensino. Defendemos o retorno crítico ao texto da História Nova do Brasil e sua disposição a juventude brasileira. É o começo (agosto de 2011).
Escrito por historia.nova às 15h53
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